O rosto da revolução conservadora

Adulada pelos que apreciavam o seu estilo e a sua política sem concessões, odiada por aqueles que a criticavam pela sua falta de empatia e pelo seu ultraliberalismo, Margaret Thatcher não deixou ninguém indiferente na Europa. Um dia depois da sua morte, a imprensa europeia reflete esta diversidade de sentimentos.

Publicado em 9 Abril 2013 às 15:33

Para o jornal Die Welt, a influência de “Maggie” sobre os seus sucessores estendeu-se para além da sua passagem por Downing Street: “A relação de Thatcher com o continente europeu ainda hoje define a política europeia britânica”, escreve o diário conservador alemão, para quem

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a “Dama de Ferro” deixou uma herança que ainda hoje se faz sentir para além das fronteiras britânicas: a sua relação com a UE, aberta, no início, e depois cada vez mais difícil até se tornar hostil. Ainda hoje há uma guerra civil no seio dos Tories em torno da pertença [do Reino Unido à UE], que pode fazer explodir os conservadores.

O diário italiano de direita, Libero, despede-se da Dama de Ferro de que a Itália precisa. “Thatcher deixa-nos sozinhos com euro-pesadelo de Merkel”, escreve o Libero, que pergunta “que género de Europa teríamos hoje se Thatcher não se tivesse demitido em 1990?

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Seria a mesma, esmagada sob o pé da Alemanha de Merkel, com a moeda única, o pacto fiscal e tudo o resto que nos está a sufocar? Provavelmente não. [...] Aquela senhora que fazia lembrar uma tia démodé nunca teria deixado passar uma Europa como aquela em que hoje vivemos. Thatcher considerava o federalismo de Maastricht um filho do socialismo que ela tinha combatido sempre. [...] Via o euro como uma perda de soberania. Não gostava da posição fideísta de alguns federalistas. Queria uma Europa unida, não uma Europa morta ou sem alma. [...] A Dama de Ferro imaginou e lutou, infelizmente, em vão contra aquilo que muitos outros só perceberam 20 anos mais tarde.

Para o Libération, foi “A grande ceifeira” que partiu. O diário de esquerda não esconde a sua aversão por aquela que “inventou uma ideologia: o thatcherismo, que continua a prosperar, apesar dos seus comprovados falhanços”. “A crise dos anos 2000 é, também, a crise do thatcherismo levado ao extremo pelos seus seguidores”, acrescenta o jornal, para quem

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durante onze anos, ela encarnou o liberalismo triunfante dos anos de 1980. Algumas ideias simples que ela soube vender como um novo evangelho: glória às privatizações, à desregulamentação do setor financeiro, à flexibilidade do trabalho e ataques cerrados contra os sindicatos. Ideias que aplicou com a convicção de um pregador, explicando que não havia outra opção, a famosa Tina: “There is no alternative”. Os mineiros, os argentinos, os grevistas da fome irlandeses foram as vítimas das suas convicções inabaláveis. [...] Thatcher impôs a sua visão da sociedade ao seu partido e ao seu país, antes de polinizar o mundo, sobretudo a América de Reagan, mas também a esquerda europeia.

Em Praga, o Hospodářské noviny lembra que, com Ronald Reagan e João Paulo II, Thatcher contribuiu para o desmantelamento do bloco soviético e para o fim da guerra fria. Esse intocável “ícone da transformação económica da Checoslováquia”

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apontava o caminho para a transformação de uma sociedade bafienta numa sociedade dinâmica de mercado e de liberdades individuais, dizia-se. Lembrando as euforias revolucionárias dos anos de 1990, predomina entre os checos uma visão idealizada, que não menciona as consequências das suas reformas conservadoras: o ambiente sufocante bem como a crise social no Reino Unido.

Na Estónia, antiga república soviética, insiste-se igualmente sobre o papel de Margaret Thatcher no desmoronamento do bloco comunista. Assim, o Postimees classifica-a como “ícone do anticomunismo”, cujo estilo governativo serviu de modelo a muitos líderes pós-comunistas:

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As suas palavras-chave, como “Estado mínimo”, mercado”, “privatizações”, etc., vendiam-se como pãezinhos quentes nos países pós-comunistas da Europa oriental. […] Thatcher era, à sua maneira, uma eurocética, sem cair no populismo. Disse sempre que uma União Europeia com mais integração teria muitos problemas e seria [um projeto] utópico, porque via a UE, sobretudo, como uma vasta zona de comércio livre. Lembrar-nos-emos dela, sobretudo, como a “Dama de Ferro” que, com [Ronald] Reagan, ganhou a guerra fria, aboliu o império soviético e que nos deu o seu apoio logo após esses acontecimentos.

Em Bucareste, o Adevărul desfaz alguns mitos que circularam em volta da personalidade de Margaret Thatcher e do seu “duríssimo estilo de governação”:

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Era uma pessoa formal e moralista – Pelo contrário, tinha um excelente sentido de humor, ficava indiferente perante o comportamento dos seus colegas masculinos, muitas vezes envolvidos em escândalos sexuais. Opunha-se à unificação europeia – Completamente falso: Thatcher defendeu com paixão a unificação europeia! Em 1975 liderou a campanha pelo “sim” [à adesão à Comunidade Europeia], promovida pelo partido conservador. O Ato Único Europeu de 1986, que modernizou o tratado de Roma e ampliou as competências da CEE, foi iniciativa sua. O thatcherismo provocou a crise financeira – Absolutamente falso: a desregulamentação bancária defendida por Thatcher nada tem a ver com a falta de fiscalização que provocou a crise iniciada em Wall Street. Ela defendia uma rigorosa regulamentação bancária.

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