Um russo aos comandos de Riga

Jovem, hiperativo e quase consensual: Nils Usakovs, o presidente da Câmara da capital representa a complexidade das relações entre a maioria letã e a forte minoria russa do país.

Publicado em 18 Dezembro 2013 às 14:07

Agente do Kremlin, mini-Putin: o presidente da Câmara de Riga, o russófono Nils Usakovs, já ouviu de tudo. Estão sempre a surgir novos epítetos, mas isso não parece afetá-lo: “Só estou a fazer o meu trabalho”, comenta o popular político, encolhendo os ombros.
Na Letónia, o Centro da Concórdia, considerado um partido pró-russo, está repleto de paradoxos. Há dois anos, venceu as legislativas, mas teve de permanecer na oposição depois de os partidos “letões” se aliarem contra ele com um único objetivo: não deixar que os russos acedessem ao poder. No início do verão de 2013, o Centro da Concórdia, presidido por Nils Usakovs, obteve a maioria nas eleições municipais.
Desta vez, nada os impediu de assumir o controlo de Riga. “É verdade que 65% das pessoas que votaram em nós são russófonos”, reconhece Nils Usakovs, que não procura negar a imagem de um partido que representa os russófonos. Mas este político de 37 anos realça imediatamente que 35% dos eleitores eram letões, o que reflete a composição étnica de Riga: 42% dos habitantes falam letão, o resto fala russo.
Nils Usakovs, eleito pela primeira vez há quatro anos para dirigir a capital letã, tornou-se o presidente da Câmara mais novo do país. Tudo indica que estamos perante um empresário extremamente sério. Como é óbvio, trata-se de uma imagem que foi meticulosamente trabalhada e que faz a sua reputação: um profissional, que consegue falar durante horas sobre projetos sociais e a sua preocupação com os habitantes, seduzindo os seus interlocutores. Mas eis que o telefone toca. Nils Usakovs pede licença para dar uma entrevista para a rádio. O seu tom muda completamente e o político começa a criticar severamente o partido letão Unidade.
Nils Usakovs está em todo o lado: na imprensa, na televisão, na Internet e nas redes sociais. Aparece como um homem político comprometido, desportivo, intelectual, severo e diretivo. Só a presença dos seus gatos é que suaviza esta imagem, tornando-o desta forma um defensor dos animais. Não é de admirar, portanto, que os seus dois gatos, Kuzia e Muris, tenham uma conta no Twitter que relata os seus dias relaxantes. É preciso inaugurar uma nova instalação? Nils Usakovs, que já cortou muitas fitas, ainda não se cansou disso. Riga adquire uma nova máquina para derreter a neve? Nils Usakovs é obrigatoriamente o primeiro a conduzi-la. Num jantar do Centro da Concórdia, apareceu vestido de forma mais casual para transmitir uma imagem de cidadão comum. No dia 8 de março, distribuiu milhares de rosas às mulheres que trabalham no conselho municipal de Riga.
E, obviamente, sempre que surge um novo problema, Nils Usakovs encarrega-se de o resolver pessoalmente, sem no entanto se esquecer de alertar ao mesmo tempo os meios de comunicação. Contudo, este antigo jornalista não se tornou apenas o homem político mais popular da cidade, também se transformou num verdadeiro fator de união em Riga. Apátrida, nome que se atribuiu aos russófonos que não obtiveram a cidadania letã após a independência do país [em 1991], o político recebeu a nacionalidade letã aos 23 anos e gosta de realçar este facto na sua biografia. “O meu pai estava na mesma situação do que eu, a minha mãe continua sem a nacionalidade letã, esta questão afeta-me profundamente”, escreveu.
Não é segredo para ninguém, Nils Usakovs desloca-se regularmente a Moscovo e frequenta as elites económicas e políticas russas. Há alguns anos, foi revelada a sua correspondência com Alexandre Hapilov, funcionário da embaixada da Rússia e suspeito de espionagem. O Centro da Concórdia também não nega manter relações estreitas com a Rússia Unida, o partido no poder na Rússia.
“Com quem mais nos haveríamos de dar? Não há outras alternativas na Rússia”, responde Nils Usakovs ao enumerar as vantagens de uma cooperação com a Rússia. “O meu papel consiste em promover Riga e criar um clima político favorável, uma vez que recebemos muitos turistas e empreendedores russos e é algo útil para a cidade.”
Qual é a principal crítica feita por certos letões ao político russófono? A “lealdade”, obviamente. Este termo é frequentemente utilizado nas discussões com os Letões Étnicos. Não confiam nos homens políticos russos e não há volta a dar.
O presidente da Câmara, que fala perfeitamente letão, reconhece que a língua letã é obrigatória para os russófonos. Por que terá então realizado um referendo para legalizar o russo como segunda língua de Estado? Tratava-se de uma espécie de vingança, afirma ele, devido ao que aconteceu nas eleições de 2009, quando os partidos “letões” se uniram para não entregar o poder ao Centro da Concórdia depois de este obter a maioria.
Nils Usakovs está disposto a encarar da mesma forma qualquer conflito em torno da história e das réplicas soviéticas. Neste momento, o principal tema de debate em Riga envolve a deslocação de um monumento que simboliza os soldados soviéticos “libertadores”, tal como fora feito em Tallinn, na Estónia, em 2007. Segundo ele, este monumento simboliza apenas a vitória sobre o nazismo e nada mais.
São 7 horas da tarde. A câmara municipal de Riga está praticamente vazia. O presidente da câmara ainda tem um encontro profissional pela frente. Os seus detratores irão provavelmente suspeitar de um novo encontro entre o agente do Kremlin e os seus mestres de Moscovo. Mas estas acusações têm cada vez menos fundamento. Nils Usakovs é um político que nunca esteve associado a nenhum escândalo. Pelo menos, por enquanto.

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