Crise enche plateias

Se há um sector que vai bem na Alemanha e na Áustria, nestes tempos de penúria, é o teatro. Porque a crise fornece matéria para representar as aflições da alma humana face à adversidade e ao poder do capitalismo.

Publicado em 27 Agosto 2009 às 13:18

Mais uma vez, Elfriede Jelinek foi a mais rápida. A sua peça Die Kontrakte des Kaufmanns , que se estreou em Abril passado no Teatro de Colónia, foi a primeira encenação a reagir de forma explícita à crise financeira.”A Bolsa teve um colapso, ai, ai, ai!”, exclama, na peça, um coro de banqueiros, numa cínica avalancha de palavras – e é como se aquele grito ecoasse ao longo do resto da temporada. Uma olhadela ao programa da temporada permite afirmar que a crise não afecta os palcos. “O teatro é a crise”, salientou um dia, com inteligência, o dramaturgo Heiner Müller. É verdade que o teatro ainda tem, e terá sempre, como pano de fundo, os erros da Humanidade mas situações especiais exigem medidas especiais. Os bancos estão a falir, a economia está em ponto morto? Ainda bem. Em contrapartida, as peças que se inspiram no capitalismo e na crise vão de vento em popa nos palcos germanófonos.

E quando, como agora, o capitalismo se encontra enterrado na miséria até ao pescoço, podemos mais uma vez recorrer ao velho Bertolt Brecht. *A Ópera dos Três Vinténs*? Vem mesmo a calhar. Esta obra coloca uma questão digna de reflexão : “O que é uma gazua comparada a uma acção da Bolsa? O que é um assalto a um banco comparado à fundação de um banco? ” Até as peças escritas por Ödon von Horváth, que criticam a sociedade e colocam em cena pessoas de condição modesta, em especial Casimiro e Carolina, estão a recuperar popularidade desde há algum tempo, porque evocam os danos colaterais causados pelo mundo do capitalismo. Contar a história de pessoas e, ao mesmo tempo, se houver oportunidade, pôr em destaque a forma como o mundo funciona, é o dever mais nobre do teatro.

No Teatro de Friburgo… o vosso dinheiro está seguro!

Se analisarmos as reflexões sobre a crise, apresentadas por quase todos os directores de teatro, no prefácio do seu programa, dificilmente nos libertaremos da impressão de que, nos tempos que correm, o teatro se julga mais poderoso e mais importante: um verdadeiro aproveitador da crise. “Estão a ver?!”, parece gritar. Não é verdade que o teatro ridiculariza e denuncia, há séculos, a sede de poder e a vilania dos homens? Não terá finalmente chegado a altura de lhe prestar homenagem e de fazer com que nos lembremos daquilo que é autêntico, quando estamos sentados numa sala de teatro? “Connosco, o seu dinheiro está em local seguro“, foi o slogan utilizado, já na época passada, na publicidade do Teatro de Friburgo. E, na nova programação de temporada do Teatro de Câmara de Munique, a directora e dramaturga, Julia Lochte, refere que as histórias representam a moeda de troca mais estável do momento.

Assim, graças aos ventos da crise, o teatro começa seriamente a ganhar velocidade, embora ele próprio não saiba onde o vai levar a viagem nem se acabará por se tornar uma vítima da desgraça financeira. Revolta? Revolução? Fracasso total? A frase de Brecht, So wie es ist, bleibt es nicht [palavra por palavra: As coisas tal como são não perduram] contém uma nova força explosiva, escreve Achim Thorwald, director do Teatro de Estugarda. Apesar disso, enquanto o comunista Brecht queria, com o seu teatro, alterar o sistema e mudar radicalmente a sociedade, hoje trata-se essencialmente de fazer um inventário e, na melhor das hipóteses, de fazer também um discurso produtivo. “Dinheiro, poder e cobiça” são as palavras de ordem da nova temporada. O Dinheiro, romance de Emile Zola, será levado à cena em Setembro, numa adaptação do dramaturgo John von Düffel, no Teatro de Dusseldorf. Conta a história de Saccard, um malabarista do mundo financeiro sedento de poder, que consegue juntar uma fortuna colossal, graças a uma especulação bolsista audaciosa, e conquistar o reconhecimento da sociedade parisiense. Até à sua queda, como é habitual.

Stefan Kaegi, do grupo Rimini Protokoll, observa os gafanhotos sob todos os ângulos, com o olhar agudizado pela crise, numa co-produção do Teatro de Zurique com o HAU [Hebbel am Ufer] de Berlim. Os animais são observados, postos em palco e os seus comportamentos comentados e sonorizados com recurso a câmaras e binóculos. O público poderá ter muito a aprender, porque os gafanhotos são tidos como os grandes ganhadores da evolução, apesar de devastarem o seu habitat.

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