Jeroen Dijsselbloem, o cirurgião da Europa

Será que poderá manter a união monetária e evitar um drama grego? Numa altura em que Jeroen Dijsselbloem deverá ser novamente nomeado como presidente do Eurogrupo, o Vrij Nederland analisa a carreira e o estilo do ministro das Finanças holandês.

Publicado em 18 Junho 2015 às 08:24

Dijsselbloem está à frente do Eurogrupo há mais de dois anos. Não tinha qualquer experiência na política internacional quando aterrou subitamente no núcleo da política europeia. O seu predecessor na presidência do Eurogrupo, Jean-Claude Juncker, um veterano no circuito europeu, era conhecido pela sua linguagem vaga, a sua política de bastidores e as suas longas reuniões noturnas. Desde que foi nomeado, Dijsselbloem tem atuado de uma forma muito distinta. Raramente deixa que as reuniões se prolonguem mais do que o estabelecido. Interrompe os discursos morosos dos seus colegas ministros. Realça a importância de cumprir os acordos. Utiliza uma linguagem clara e direta.

A sua linguagem direta foi a maior mudança à qual Bruxelas teve de se habituar. A franqueza de Dijsselbloem chegou mesmo a produzir um alvoroço internacional durante a sua primeira grande prova: a gestão da crise do Chipre. Em março de 2013, numa entrevista ao Financial Times, confirmou que uma das medidas adotadas contra a crise cipriota, isto é, a de os depositantes também terem de contribuir para o resgate dos bancos, serviria de plano de ação para outros países da zona euro. Foi então que surgiram muitas críticas, dizendo que tinha lançado uma bomba verbal aos mercados financeiros. No final, não acabou por ser uma ideia tão má como parecia, mas esta afirmação perseguiu-o durante muito tempo. “Dijsselbloem consegue ser muito direto”, afirma Peter Spiegel, diretor da sede de Bruxelas do Financial Times, que recolheu a declaração sobre o plano de ação. “Disse acidentalmente a verdade. É esse o seu estilo. É o oposto de Juncker, que outrora afirmou: ‘Se as coisas se complicarem, minta’”.

No ano passado, a sinceridade de Dijsselbloem voltou a suscitar outra agitação internacional, quando chamou ao próprio Jean-Claude Juncker um “fumador e bebedor inveterado” no programa televisivo holandês Knevel & Van den Brink. A frase correu o mundo. Juncker, que acabava de anunciar a sua candidatura à presidência da Comissão Europeia, viu-se obrigado a declarar publicamente que “não tinha nenhum problema com o álcool”.

A estratosfera de Bruxelas

Dijsselbloem não acredita que o seu comentário tenha prejudicado a sua relação com Juncker de forma permanente. “Foi uma brincadeira desafortunada que causou muitos problemas ao Jean-Claude. Já lhe pedi desculpas duas vezes, primeiro por telefone e, mais tarde, enquanto tomávamos café. O assunto deverá ficar assim encerrado, não se pode prolongar para sempre”. Entretanto, diz Dijsselbloem, a sua relação com Juncker “é boa”. “Falamos por telefone quase todas as semanas para nos certificarmos de que mantemos a mesma posição quanto à Grécia. Sempre que nos encontramos abraça-me e beija-me”. Acrescenta ainda sorrindo: “Mas parece que faz isso com todas as pessoas”.

Para obter bons resultados na estratosfera de Bruxelas, é preciso ter um jogo político impecável. O presidente do Eurogrupo tem de lidar com os opositores de dezassete nacionalidades, com grandes diferenças culturais, e egos ainda maiores, antigas disputas e agendas ocultas. Com um inglês muitas vezes pouco hábil, esta assembleia bragada tem de chegar a um acordo. Em princípio, todas as decisões são tomadas de forma unânime, pelo que um “não” dito alto pode ter um grande impacto. Enquanto presidente, Dijsselbloem tem de avaliar se se trata de uma tática negativa com a finalidade de cimentar uma melhor posição na negociação ou de uma posição ideológica e inflexível. Segundo fontes de Bruxelas, Dijsselbloem está a apanhar o jeito. “A sua maior conquista”, explica Peter Spiegel, “é que o Eurogrupo nunca esteve tão unido como agora, sob a sua liderança”.

Dezembro de 2012. Na terceira reunião dos ministros europeus das Finanças, à qual Dijsselbloem assiste como ministro do Governo, este ouve que Wolfgang Schäuble, o ministro francês Pierre Moscovici, o presidente do BCE Mario Draghi e o comissário da UE Michel Barnier estão numa reunião separada para discutir a formação da União Bancária. Decide assistir a essa reunião. Todos ficam perplexos: quem é que este jovem holandês presunçoso pensa que é? Mas não lhe pedem que saia. Arranjam uma cadeira para se sentar. Durante horas assiste à reunião, falando sobre como combater a crise e salvar a união monetária. Nas semanas seguintes, o contingente alemã começa a difundir o rumor de que Dijsselbloem pode ser o sucessor ideal de Juncker. Dijsselbloem afirma que a ideia é descabida quando a escuta dos seus funcionários e recusa-se a acreditar que estejam a falar a sério. No entanto, na próxima reunião, Wolfgang Schaüble nomeia-o pessoalmente como o candidato favorito. Os restantes presentes não levantam qualquer objeção. Poucas semanas depois começa o seu novo emprego.

O lacaio dos alemães

“Wolfgang Schäuble inventou Dijsselbloem”, diz um dos funcionários do ministro alemão. “Mantém uma relação quase paternal com ele”. Dijsselbloem também parece sentir o mesmo. “Schäuble é um político experiente. É um negociador fabuloso. Assim que o conhecemos melhor, também é engraçado. Adora antagonizar as pessoas de forma sarcástica, sempre com um sorriso nos lábios. É um homem malicioso”.

A forte relação que os une também tem um lado negativo: desde o momento que Dijsselbloem foi nomeado como presidente após a nomeação de Schäuble, ficou conhecido, sobretudo nos países do sul, como o lacaio dos todo-poderosos alemães. O frugal holandês também ganhou a reputação de ser o maior aliado da Alemanha na aplicação das normas orçamentais sacrossantas. Os meios de comunicação chamam-lhe “o lacaio de Schäuble” e “alemão com tamancos”.

Mas as fontes internas dizem que Dijsselbloem sem dúvida também se opõe aos alemães de vez em quando. Por exemplo, em janeiro decidiu viajar para Atenas imediatamente após a vitória das eleições do partido de esquerda radical Syriza, contra a vontade de Schäuble.

Dijsselbloem é o rosto do Eurogrupo, mas a maior parte do seu trabalho ocorre nos bastidores, em reuniões privadas e chamadas telefónicas com colegas e líderes políticas. Apoia-se muito nos seus funcionários de Bruxelas, o Grupo de Trabalho do Eurogrupo dirigido pelo austríaco Thomas Wieser, e um pequeno grupo de funcionários do seu próprio departamento ministerial.

Segundo Thomas Wieser, Dijsselbloem mantém sempre a calma, independentemente das dificuldades que os ministros do Eurogrupo lhe coloquem. “Mantém-se sempre tranquilo no centro da tempestade”, explica. “Nunca vi o Jeroen chatear-se. Tem uma paciência infinita. É como um pica-pau a fazer um buraco num carvalho. É esse o método de Dijsselbloem. Se ainda não tiver a solução depois de tentar cinco vezes, volta a tentar”.

Respeito ganho

As fontes internas de Bruxelas dizem que graças aos seus conhecimentos e ao seu talento para o pensamento criativo, Dijsselbloem ganhou o respeito de muitos dos seus homólogos do Eurogrupo. Segundo afirma o mesmo, é algo que também o ajudou a superar as suas inseguranças: “Ocorreu-me o mesmo quado estava na Câmara de Representantes: quero saber tudo ao pormenor, quero dominar todos os assuntos. Caso contrário, sinto-me inseguro ao assistir a uma reunião. Preocupa-me o facto de alguém me colocar uma proposta e eu não a entender”.

Quando Dijsselbloem fala ao telefone com Alexis Tsipras no dia 25 de abril, depois de regressar de uma reunião do Eurogrupo em Riga, este explica-lhe que não podem continuar assim. O progresso é demasiado lento. As negociações com os ministros e as autoridades gregas não estão estruturadas, são fragmentadas e descoordenadas. Insiste para que Tsipras volte a assumir o controlo.
Duas semanas mais tarde, após a seguinte reunião do Eurogrupo em Bruxelas, Dijsselbloem anuncia numa conferência de imprensa que, pela primeira vez, se progrediu. O que parecia uma tarefa impossível em Riga (chegar a um acordo com a Grécia antes do dia 1 de julho para evitar a falência do país) parece agora um resultado possível. “Ainda temos de colmatar diferenças consideráveis”, diz, “mas as negociações estão agora a progredir de forma mais eficiente e construtiva”.

Entretanto, o primeiro mandato de Dijsselbloem está a chegar ao fim. Oficialmente ainda não é candidato, mas já começaram as ações de lobbying para que volte a ser nomeado. A questão da sua potencial candidatura já foi várias vezes subtilmente levantada nas últimas semanas, nas suas visitas a Paris, Berlim e Roma. As suas possibilidades parecem estar a aumentar. Segundo os analistas de Bruxelas, o apoio que Angela Merkel expressou ao ministro espanhol De Guindos não significa de forma alguma que Dijsselbloem não tenha quaisquer possibilidades. “Merkel é conhecida por deixar de apoiar alguém quando é necessário”, diz Peter Spiegel. “Nada é definitivo”, explica Markus Ferber, “em novembro realizar-se-ão eleições em Espanha. O que torna o futuro político de Guindos incerto”. Por outro lado, existem muitas possibilidades de que os poderosos alemães não queiram “Keine Experimente”, isto é, nenhuma experiência, nestes momentos difíceis. A melhor opção seria, portanto, Jeroen Dijsselbloem.

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