Um plano de resgate que nos vai matar a todos

A UE e o FMI acordaram um financiamento de €10 mil milhões para os bancos cipriotas, mas o preço que exigem é um imposto sobre todos os depósitos. Esta condição deixou a pequena nação mediterrânica completamente atordoada, com o “Cyprus Mail” a acusar o novo Presidente e os outros Estados-membros de atraiçoarem a ilha.

Publicado em 18 Março 2013 às 12:16

Apesar de a agenda da UE prever, há mais de um mês, um corte nos depósitos bancários e de esse corte figurar nos memorandos da Comissão e ter sido publicamente discutido por políticos europeus que, na sua maioria, se recusaram a excluí-lo, poucas pessoas achavam que o Eurogrupo avançaria com esta medida. A opinião generalizada é que se tratava de uma ameaça ociosa para forçar Chipre a privatizar as OSG [Organizações Semi-Governamentais] e a aumentar o IRC.

E, afinal de contas, o Presidente Nicos Anastasiades tinha declarado enfaticamente no seu discurso de tomada de posse que “não seria tolerada absolutamente nenhuma referência a um corte nos depósitos ou na dívida pública”, acrescentando que “um assunto desses nem estava aberto a discussões”. As declarações do ministro das Finanças, Michalis Sarris, foram igualmente tranquilizadoras, afirmando que seria uma loucura a UE impor uma medida destas porque isso seria uma ameaça ao sistema do euro.

A Alemanha e os líderes do Eurogrupo optaram por esta loucura, calculando que Chipre é demasiado pequeno e inconsequente para que um corte nos seus depósitos bancários possa contagiar a zona euro [os depósitos até aos €100 mil serão tributados com um imposto de 6,75% e os restantes, com 9,9%]. Claro que os mercados poderão encarar esta medida de uma forma diferente, talvez não no momento em que abrirem as suas portas, segunda-feira, mas umas semanas mais tarde, visto começar a ser notório que nem os depósitos em bancos europeus estão a salvo dos ataques do Eurogrupo.

Anastasiades foi vítima de chantagem

É óbvio, pelas declarações prestadas, que o Presidente Anastasiades foi vítima de chantagem para aceitar aquilo a que eufemisticamente se chama “direito nivelador de solidariedade”. Se não aceitasse, o Banco Central Europeu não prestaria uma Assistência de Liquidez de Emergência aos bancos cipriotas após o prazo de 21 de março (o prazo tinha sido prorrogado por dois meses em janeiro) e os bancos abririam falência no mesmo dia, com as pessoas a perderem partes ainda maiores dos seus depósitos do que os 7 a 10% que lhes serão retirados agora.

Será que o Presidente Anastasiades tinha alternativa? Não é fácil dizer, atendendo à pressão para que se conseguir um acordo político até à passada sexta-feira. Tudo indica que os nossos parceiros da UE tomaram uma decisão antes disso e foi por isso que agendaram a reunião do Eurogrupo para discutir o financiamento para uma sexta-feira à noite. Os bancos cipriotas estariam fechados durante três dias [segunda-feira, 18 de março, é feriado], período durante o qual seriam dados todos os passos para resgatar depósitos e os bancos poderiam abrir terça-feira como se nada tivesse acontecido.

No sábado, 16 de março, um deputado aventou a hipótese de ser melhor deixar falir os dois bancos que pediram assistência de liquidez ao BCE do que aceitar o corte. Mas o problema não ficaria circunscrito a estes dois bancos, visto haver uma interdependência bancária, e uma corrida a um ou a dois bancos depressa se espalharia a todos os outros. Este será o principal argumento do Presidente Anastasiades para explicar o motivo que o levou a aceitar o resgate dos depósitos. A alternativa seria o colapso dos bancos, a falência do Estado e a saída do euro.

Nestas circunstâncias, o Presidente cipriota optou pela solução menos má, embora nos pareça que pouca gente o irá apreciar por isso. De facto, a UE ofereceu um “pacote de resgate” concebido para destruir e não para resgatar o que resta da economia cipriota.

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